As habilidades indispensáveis do advogado de empresas no novo tempo
- rbsconcursos
- 24 de dez. de 2025
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Há algum tempo venho amadurecendo uma convicção que, hoje, já não guardo apenas como intuição profissional, mas como posição clara: não acredito mais que o bom advogado empresarial seja, antes de tudo, um grande contencista. A experiência prática, o convívio com empresários e a observação do funcionamento real do Judiciário brasileiro me levaram a uma conclusão incômoda para alguns, mas necessária: o advogado de empresas precisa ser, primordialmente, um negociador nato.
Não se trata de desprezar o contencioso, tampouco de negar sua importância. O processo judicial continua sendo instrumento legítimo e, muitas vezes, inevitável. O problema é quando ele se transforma no caminho natural, quase automático, para qualquer conflito empresarial. Em um país marcado por profunda insegurança jurídica, decisões contraditórias e longos prazos de tramitação, levar um conflito ao Judiciário significa, muitas vezes, entregar o destino do negócio a variáveis que fogem completamente ao controle das partes. Por isso, cada vez mais entendo que a missão central do advogado empresarial é evitar o litígio, e não protagonizá-lo. E evitar o litígio exige algo muito mais sofisticado do que saber peticionar bem.
O advogado de empresas precisa compreender profundamente o direito civil, especialmente a teoria geral dos contratos. É ali que se constroem os alicerces das relações empresariais. Um contrato bem estruturado, claro, equilibrado e realista previne mais conflitos do que dezenas de ações judiciais bem-sucedidas. A advocacia negocial, nesse ponto, exige domínio técnico, mas também sensibilidade prática para entender o negócio, o setor, os riscos e as expectativas envolvidas.
Ao mesmo tempo, é impossível atuar bem no ambiente empresarial sem sólido conhecimento de direito societário. Conflitos entre sócios raramente nascem de má-fé; quase sempre surgem da ausência de regras claras, de expectativas mal alinhadas ou de estruturas societárias improvisadas. O advogado que não compreende governança, valuation, mecanismos de saída, sucessão e reorganização societária acaba atuando apenas quando o conflito já se tornou irreversível.
Mas isso não basta. O advogado de empresas precisa transitar, com segurança, pelo direito tributário, ainda que não seja um tributarista de formação. A carga tributária, os regimes fiscais e os riscos de autuação influenciam decisões estratégicas, operações societárias e até a viabilidade de determinados modelos de negócio. Ignorar esse campo é assessorar de forma incompleta. Isso também se aplica ao direito do trabalho. Relações trabalhistas mal estruturadas são fonte permanente de passivo e insegurança. Um advogado empresarial que não compreende as dinâmicas do vínculo empregatício, da terceirização, do compliance trabalhista e da gestão de pessoas acaba empurrando o empresário para conflitos previsíveis e, muitas vezes, evitáveis.
Todo esse conhecimento multidisciplinar não tem como objetivo formar um “superespecialista” em tudo, mas sim permitir ao advogado enxergar o todo, compreender as interseções e orientar decisões de forma estratégica. O advogado empresarial moderno não resolve apenas problemas jurídicos; ele ajuda a escolher caminhos. E é nesse ponto que entra, talvez, a habilidade mais negligenciada na formação jurídica tradicional: a capacidade de negociar. Negociar não é ceder sempre, tampouco ser fraco. Negociar é compreender interesses, construir soluções possíveis, administrar conflitos e preservar relações quando isso for estrategicamente relevante. No mundo empresarial, romper relações nem sempre é vitória; muitas vezes é perda de valor.
À medida que a inteligência artificial avança — e ela avançará de forma avassaladora —, grande parte do trabalho repetitivo, técnico e padronizado será automatizado. Petições simples, análises preliminares e até minutas contratuais genéricas já estão sendo produzidas por sistemas inteligentes. O que não será automatizado com facilidade são as habilidades humanas: leitura de contexto, empatia, persuasão, negociação, mediação e construção de confiança.
Por isso, acredito que os próximos anos exigirão do advogado empresarial menos beligerância e mais sofisticação relacional. Menos culto ao litígio e mais valorização da conciliação, da mediação e das soluções consensuais. Não porque sejam mais “bonitas” ou politicamente corretas, mas porque são, na maioria das vezes, mais eficientes, menos custosas e mais previsíveis. Evitar o Judiciário não é covardia; é estratégia. Ir ao Judiciário deve ser decisão racional, consciente e, muitas vezes, o último caminho possível, não o primeiro impulso. O advogado que entende isso presta um serviço muito mais valioso ao empresário do que aquele que apenas promete “ganhar a ação”.
Vejo, portanto, o advogado de empresas do presente — e, sobretudo, do futuro — tanto como um profissional de visão ampla, com sólida formação jurídica, quanto como um profissional com uma forte capacidade negocial, estratégica e humana. Um expert que entende de direito, sim, mas que entende ainda mais de pessoas, negócios e escolhas. É nesse modelo de advocacia que acredito. É esse o caminho que sigo.
Rodrigo Bezerra
Advogado
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